segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ele para ela & Ela para ele IX (ela)


Comecei a caminhar em direção a ti mesmo sem saber se era certo o que estava a fazer, não havia tempo para isso, para qualquer ponderação ou duvida, para qualquer tipo de medo que fosse. É agora ou perco-te para sempre, é a ultima oportunidade de te dizer tudo isto que sinto, de te explicar todo este emaranhar de emoções que me confundem os sentidos, e toda esta confusão de sentidos que me confundem o coração num acelerar atrapalhado.
Já não olhas para mim entretanto, mas não foi por isso que abrandei os passos, não, não vou desistir agora que estou a chegar perto, agora que passei pela tempestade, e não, não é esta tempestade que vai nos céus e se faz ver, mas sim aquela tempestade em que me coloquei quando te conheci, naquela que não se vê, mas que se sente. Oh mas tu não tens culpa, não tens culpa meu amor... Vês? E já pronuncio palavras que não devo, só por me sentir mais perto de ti.
E eis que aqui estou agora ao teu lado na paragem, sentei-me como se desconhecida fosse... Esperei um pouco que dissesses algo, limitando-me apenas a olhar para o chão durante longos segundos, mas nenhum som se ouviu a não ser o da chuva. Ah tenho que falar, anda lá, está quase. Mas afinal que irei eu dizer? Um silencioso olá soou por entre o embater da chuva na paragem e as emoções estavam agora completamente sem controlo. E eis que uma resposta se ouve... Um ''olá, como te chamas?'' ouve-se num tom de voz assustador por soar terrivelmente desconhecido. Então levantei a cara do chão, agora com medo do previsível. ''Olhei-te'' e não te via, não reconhecia os teus olhos para além de não ter reconhecido a tua voz. Não te olhei afinal, não te vi.
Num momento como aquele nunca a desilusão tinha sido tão profunda, nunca uma voz tinha feito tanta diferença, provocado tanta dor, tanta saudade. Era como se me rasgassem o coração, despedaçassem os restos dele e mos dessem para as mãos, enquanto uma plateia se ria de mim, enquanto o mundo se ria de mim.
Virei costas e corri, corri como nunca outrora correra, corri sem sentir as minhas pernas, já sem ter coração, corri já sem nada a não ser as lágrimas. Eu sei para onde devo ir, vou para o único lugar que não me desilude, o único lugar que cura tudo, ou quase tudo. Vou para o areal, molhar os pezinhos naquela agua gelada, e vou congelar o amor e depois vou parti-lo para sempre, destrui-lo para nunca mais volta-lo a ver. Nunca mais.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Bola de neve do azar


 
Se azar fosse doença ou algo do género, eu já devia estar em qualquer coisa próxima do estado vegetal. E uso a ironia porque acho que chatear-me já não resolve nada. Para quê? Se me chateio ainda é capaz de haver mais meia dúzia de consequências e trazer mas um milhão de azar para os meus lados. Ah e eu dispenso isso.
E é sempre a mesma bola de neve, porque um floco nunca vem sozinho assim como o azar, e azar puxa azar e ao final do dia reparas que já perdeste uma coisa importante para ti, ou partiste algo, ou chateaste-te com alguém, ou ouviste sermão para defenderes alguém, ou fizeste algo que não devias sem querer, entre outros. E lá está a bola de neve, a rolar e a acumular, até embater contra algo e destruir-se, ou parar por qualquer razão e aí, aí sim finalmente conseguires respirar de alivio. Ah e eu queria tanto respirar de alivio... Bola de neve, podes parar por favor? Por favor?
Oh, acho que vou beber chocolate quente, para me aquecer deste frio azar.

sábado, 13 de julho de 2013

Metade da alma #


 
 

E deixaste-me assim longe do meu mundo, corrompida no espaço, de metade da alma nas minhas mãos.

E seria este o seu maior pesadelo. Poderia ser ou não ''longe da vista'' mas nunca voltaria a ser '' perto do coração'' . A partir desse dia, tu irias desaparecer para sempre da vida dela por qualquer razão desconhecida, porque não precisa de existir razão aparente para as consequências ou as reações serem semelhantes, para a dor se alastrar e a pouco e pouco magoa-la, destrui-la ou mata-la. O motivo pouco importa quando a ação principal foca-se numa tragédia. E a tragédia desse dia seria perder-te e o que doeria só ela saberia. Oh só ela, só ela...
É o fim do ultimo ato, aquele que mais receava que chegasse, chegou o momento em que cada um vai para o seu canto, cada um despe-se da personagem, o cenário arruma-se, o sonho desaparece. E tudo isto é como uma bola de neve que rola através do sonho, numa velocidade cada vez maior numa escada para o nada, para lado nenhum. Tu eras o sonho dela e este nada tornou-se agora no que ela é. No que ela é sem ti.
Por momentos não vai acreditar no sucedido, vai gritar desesperada que é mentira, ao mesmo tempo que vai percebendo que já não te tem, e quando perceber finalmente, cada parte do corpo dela vai sentir a tua falta, vai querer tocar numa molécula tua, ter por perto um átomo teu, respirar aquele ar abafado de quando estavam perto um do outro. Oh e o teu cheiro está a desaparecer tão rápido tal e qual um dia fútil, como se o mundo quisesse desvalorizar tudo isto, ou como que brincasse com todos estes sentimentos. E ela gritou socorro, até que percebeu que a voz ou o eco que permanecia no ar não te traria de volta. Era inútil, porque aquele dia tinha chegado. O fim do ultimo ato tinha chegado, e tu não voltavas mais. Oh era isto que receava, era isto. Era este o meu maior pesadelo.

E deixaste-me assim longe do meu mundo, corrompida no espaço, de metade da alma nas minhas mãos.