terça-feira, 24 de setembro de 2013

Carta de Saudade II #

 
Naquela sala outrora houveram longas conversas, grandes gargalhadas e sorrisos. Ali houve horas e horas a fio repletas de sinceridade, marcas deixadas no tempo, pessoas que se tornaram eternas. O tempo passou tão rápido por aquele lugar... Oh, agora o chão de madeira brilhante dá lugar à mera madeira gasta pelos sapatos e pelo bicho. Agora tudo o que era um ar limpo dá lugar à intoxicação de pó. Tudo se tornou escuro, só porque sim, só porque o tempo quis que assim o fosse.
E tudo isto me faz confusão, não as lembranças, mas as saudades. Saudades de ouvir o ranger da porta e que mesmo sem olhar eu saber que ias ser tu a entrar. Tenho saudades. Saudades ainda maiores porque julgava que ia ser sempre assim, porque julgava que ias estar para sempre junto daquela porta à minha espera. Hoje não... E o quanto eu me arrependo de não ter olhado todas as vezes que passaste por ela, todas as vezes que eu ouvi o ranger da porta. Oh, em todas elas eu podia ter gravada mais um pedacinho de ti e não o fiz.
E agora? A única coisa que vejo é a tinta a descascar, a tua sombra imaginária no chão de madeira, o tempo a passar, e um monte de recordações enclausuradas na minha cabeça, sem haver retorno, sem haver maneira de voltar atrás.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tu e o chocolate VIII #

 

Ela precisa de açúcar, muito açúcar, montes de doces para se acalmar. Precisa de potes de mel para adocicar o medo já que ele lhe parece amargo demais. Precisa de café quente, chocolate com pão em vez de pão com chocolate e de flocos de neve escondidos no bolso sem ninguém saber. Fá-lo para se sentir segura, para se esquecer do que está em falta, para se confortar...
 Quer mandar os males embora, as inseguranças, os medos... Quer que a tua ausência não lhe fira tanto o coração como fere. Oh, precisa de deixar de se sentir acelerada demais ou com forças a menos. Deixar de suster a respiração quando um pensamento mau lhe vem à mente em vez de respirar calmamente e manda-lo embora.
Sobretudo tem que deixar de se armar em forte. Isso não vai resultar, nunca resultou. Que adianta um sorriso estampado no rosto e um ''esta tudo bem'', quando o que vai dentro é tudo menos um isso?
Talvez o que precisa seja mesmo só de um pouquinho de aconchego, um abraço bem apertado, um ''eu estou aqui'' sincero. Precisa de olhar para ti. E tu sabes, sabes bem o quanto ela gosta de olhar para ti, que era bem capaz de ficar uma noite inteira acordada só para ver-te a respirar. Para ela é como se os segundos fossem escasso, como se lhos estivessem a roubar aos poucos e por isso é que diz que queria estar em todos eles ao teu lado. Ah, dava tudo para despentear-te só para te irritares com ela, porque ela adora isso, ela adora-te. Por isso quando não estás tenta enganar a saudade já que não tem o teu lado doce do lado dela. Porque o teu lado doce é o melhor de todas as guloseimas. E é esse teu lado que a faz feliz, de manha até ao final do dia.

sábado, 24 de agosto de 2013

Tanque de guerra


E caminho por entre caminhos aparentemente bonitos o tempo todo, com pessoas felizes que me parecem adorar, e todas elas sorriem para mim e eu sorrio em troca. Ah parecem tantas, parecem flores lindas, todas elas incríveis, todas elas verdadeiras, todas elas surreais ao mesmo tempo.
O mundo porém engana bem, as aparências iludem, e tudo o que nos parece um caminho bonito, pode ser um caminho cheio de buracos mal tapados, cheio de armadilhas cuidadosamente preparadas. Perceberás um dia que esse caminho não foi feito para o enfrentares como um tapete vermelho, mas como um tanque de guerra, ou vida, se assim preferires. Vais perceber que metade do que parecia fácil vai consumir-te a cabeça por dificuldade e que a outra metade que achavas difícil vai-te surpreender pela facilidade. Vais olhar mais tarde para toda aquela gente e vais dar conta que faltam imensas, que umas se foram embora porque quiseram e outras traíram a tua confiança, mentiram-te e tu fizeste questão que elas não ficassem.
Nada te vai parecer como anteriormente, já não vão parecer flores lindas, tanto as que foram como as que ficaram. As que foram passam a ser flores de espinhos e as que ficaram flores apenas. Flores apenas porque nunca saberás quem elas são, nem elas saberão o que tu és. Talvez sempre tenham sido todas surreais. Não saberás.
No final, não te vais arrepender de nada, nem das que foram, nem das que ficaram, nem das que estão para vir ainda, nem das que estão para ir também. Vais continuar a andar, mesmo sabendo que estás num tanque de guerra, e mesmo sabendo disso vais conseguir ver flores, vais conseguir ver sorrisos, vais conseguir sorrir.