Naquela sala outrora houveram longas conversas, grandes gargalhadas e sorrisos. Ali houve horas e horas a fio repletas de sinceridade, marcas deixadas no tempo, pessoas que se tornaram eternas. O tempo passou tão rápido por aquele lugar... Oh, agora o chão de madeira brilhante dá lugar à mera madeira gasta pelos sapatos e pelo bicho. Agora tudo o que era um ar limpo dá lugar à intoxicação de pó. Tudo se tornou escuro, só porque sim, só porque o tempo quis que assim o fosse.
E tudo isto me faz confusão, não as lembranças, mas as saudades. Saudades de ouvir o ranger da porta e que mesmo sem olhar eu saber que ias ser tu a entrar. Tenho saudades. Saudades ainda maiores porque julgava que ia ser sempre assim, porque julgava que ias estar para sempre junto daquela porta à minha espera. Hoje não... E o quanto eu me arrependo de não ter olhado todas as vezes que passaste por ela, todas as vezes que eu ouvi o ranger da porta. Oh, em todas elas eu podia ter gravada mais um pedacinho de ti e não o fiz.
E agora? A única coisa que vejo é a tinta a descascar, a tua sombra imaginária no chão de madeira, o tempo a passar, e um monte de recordações enclausuradas na minha cabeça, sem haver retorno, sem haver maneira de voltar atrás.


