sábado, 21 de dezembro de 2013

O Segredo de Mel 12#


Passara-me uma semana desde o dia das entrevistas e quanto mais o tempo passava mais desejava saber noticias, mais ficava curiosa. Precisava de receber uma carta no correio que dissesse ''Foi aceite'' ou uma chamada de boas noticias, qualquer coisa menos um não ou aquele silencio. Ah, tinha tanto medo que isso não acontecesse. Tanto tanto medo. Afinal, sempre vivera do medo e isso já não era novidade para ninguém. Apesar disso, nunca se conseguiu familiarizar com ele, o que parecia um quanto estranho. O medo parecia aquelas gripes chatas, daquelas que sempre que pensas que ficou erradicada te ataca com mais intensidade e acabas por andar mais uns quantos dias a fungar o nariz. Medo para ela é um vírus da gripe, que sofre constantes mutações e com o tempo se torna cada vez pior. 
- É isso, um vírus dos grandes e daqueles que nem um xarope de cenoura consegue tratar. Oh nunca me vou habituar. - suspirou.
Hoje não ia pensar mais em medos, tinha muito que fazer. Ia organizar um jantar de amigos em sua casa e estava tudo atrasado para não variar. Era sempre a mesma coisa. Não conseguia chegar a tempo a lado nenhum ou por mais que estivesse adiantada nunca conseguia acabar nada a tempo porque havia sempre alguma coisinha que atrapalhava tudo. Ou a comida esturrava - devido aos seus grandes dotes culinários- ou se esquecia do telemóvel em casa e quando se lembrava já ia a meio do caminho para a mercearia. Era uma cabeça no ar, sabia-o.
Estava quase tudo pronto finalmente, graças à ajuda de mariana claro. Como sempre, ela era a sua grande salvação para além da sua mãe. Se não fosse ela, aquele bolo de iogurte ou tinha abatido ou tinha ficado tostado. Bem, a casa tinha bom aspecto - para além da comida - estava toda decorada com umas quantas velas de cheirinho de côco no parapeito da janela e na parte superior da lareira. Cheirava tão bem! Tinha que admitir que estava tudo muito bonito e que tinham feito um excelente trabalho. O faísca que o dissesse, já que tinha comido mais de 4 croquetes e estava de barriga para o ar em frente à lareira. Bem, quando mel e mariana o viram naquela postura de guloso riram-se tanto que mariana ao dirigir-se para Mel para lhe dizer algo por entre aqueles risos tropeçou na almofada e caiu. Foi a maior das risota e tinha sido merecido de uma filmagem para o grupo ver a bela derrapagem. Oh ia ser tão gozada se a tivessem visto.
 Agora só faltava chegarem, estava ansiosa, já não estava com a maioria deles à muito tempo, em media um ano ou dois. Tinha saudades dos cafés nocturnos, daquelas conversas até as tantas da madrugada, até de pegarem com ela. Eram todos incríveis, adorava-os e sabia que aquele sentimento era mutuo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Segredo de Mel 11#


Mel acordou com uma carrada de pelo na cara.
- Oh FAISCA!! Sai de cima de mim! - gritou. Faisca manteve-se intacto como quem se sente ofendido. Ignorou-a e por isso foi obrigada a pegar nele e pô-lo de lado. Só que faísca não gostou muito de sair daquele local confortável suponho e furou para dentro dos lençóis chateado.
- Como queiras amuado ... - retorquiu.
Hoje acordou decidida, acontecesse o que acontecesse, a bem ou a mal ia arranjar um trabalho. Ah se ia. Levantou-se da cama  e deslocou-se para a casa de banho e mal olhou para o espelho viu que estava ridícula, tinha o cabelo todo despenteado, estava com uma cara que metia medo ao susto e por isso gracejou- Ah, assim não vais arranjar trabalho de certeza!
Mal acabou de se arranjar e parou a ver-se ao espelho comprido do quarto. Sentia-se estranha por estar assim arranjada. Um pouco desconfortável porque nem se lembrava da ultima vez que se vestira ''bem'' para alguma ocasião. Agora tinha que ser, mesmo que lhe custasse, e daí em diante se tivesse a sorte de arranjar o seu trabalho de sonho teria de ser assim. Infelizmente as pessoas dão demasiada importância a isso, e sabia que nas entrevistas de emprego que teria naquele dia a iam analisar cima abaixo minuciosamente antes de sequer fazer alguma pergunta importante. O mundo era assim, tinha de se acostumar.
Na primeira entrevista sentiu-se bastante intimidada com o olhar do homem, fazia grandes pausas entre as afirmações e fazia perguntas tão grandes e desnecessárias que se perdera a meio. Acho até que não percebia bem o que estava ali a fazer. A segunda entrevista fora a mais normal, era para uma empresa mediana e as perguntas eram mais ou menos as esperadas. Pareciam ter gostado dela. Por fim, a terceira entrevista. Bem, essa foi a que lhe provocou um nervoso miudinho, era mesmo ali que queria trabalhar. Claro que não estava muito iludida, mas havia um bichinho de esperança. A empresa era enorme, ocupava um edifício inteiro e achava até que aquilo era demasiado grandioso. Andava tudo incrivelmente arranjado, tudo atarefado mas bem disposto. Era um sonho. Um sonho tão grande que aquela espera de 5 minutos para entrar na sala pareceu horas de sofrimento e sem ar.
A entrevista correra bem, mas estava um quanto reticente. O olhar observador da mulher deixara-a bastante desconfortável. Não sabia se aquilo era bom ou mau. Fosse como fosse, só queria ficar numa delas. Não ia sonhar alto. Só precisava de um emprego.
Oh, qualquer um por favor, por favor!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Indefinida



''És demasiado complicada'', é o que o mundo lhe grita aos ouvidos. Grita-o em instantes diferentes, formando um não melodioso ruído que lhe ecoa na cabeça. Não a deixam pensar, não a deixam responder. Ah, talvez ela não se queira dar trabalho de responder. É, acho que é isso. Ouve e deixa-se levar pelo silencio...  Afinal, silêncio sempre fora a melhor resposta para alturas de incompreensão.
Sim, ela é complicada mas isso é porque guarda mais que o universo dentro dela, guarda sensações que não existem, guarda palavras ainda não criadas, frases que não podem ser ditas, baús de lembranças despedaçadas, saudades, idas sem regresso, momentos inesquecíveis, dores dilacerantes, olhares magoados. Trás lugares tatuados no coração, indefinição na essência da alma. 
Indefinida. Indefinida é o que ela é. E somente por esse motivo nunca a vais conhecer. Mesmo que julgues que sabes tudo dela, pensa um pouco. Olha bem para o seu cabelo pousado sobre o ombro, olha para as diversas expressões, consegues explica-las? Consegues decifrar as tatuagens do seu coração? Consegues vê-las sequer? Não, não consegues pois ocupam muito mais do que a imaginação pode levar, porque ocupa exatamente o indefinido... Oh, consegues defini-lo? Defines a indefinição? 
Então fica-te por olhar para ela, para o cabelo pousado nos ombros e na sua expressão. Acompanha-a nos seus passeios pelo silencio.
Indefinida ou complicada. Como queiram. Gosta de assim o ser.