quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Segredo de Mel 16 #


Duas semanas depois Mel estava quase como nova, principalmente depois de receber uma maravilhosa prenda (um relógio) dos seus amigos. Mas que encanto! Estava com a moral um pouco mais levantada, mesmo apesar do nervosismo miudinho, devido à escassez de resposta de pelo menos uma das empresas onde foi entrevistada. Sentira-se bastante confiante nos primeiros dias, razoavelmente confiante vá, mas com o passar das semanas essa confiança pareceu fugir não se sabe para onde. Porquê demoravam tanto? Deviam ter encontrado alguém melhor certamente. Que azar!
Eram 8h45 e dirigia-se agora para a cozinha - não percebia o porquê de estar a pé tão cedo - só queria preparar uns maravilhosos cereais de chocolate ou um batido de fruta, ainda tinha de decidir... Logo se via. A descer as escadas do quarto quase que dava um grande trambolhão, apanhara um susto tão grande que desde então, decidira arregalar bem os olhos - mesmo a todo custo - para que tal não acontecesse, ou pelo menos não naquelas escadas. Mal chegou à cozinha, abriu logo o frigorífico a manteve-se alguns segundos em frente àquele gelo, enquanto esperava a resposta em relação ao que havia de comer. Não conseguia decidir. Ah e deixou-o tanto tempo aberto, que Faisca já estava atrás dela a miar... A miar e a miar... 
- Shiuuuu, deixa-me pensar Faísca! - disse baixinho.
Como sempre e para não variar, não se calou e começou a passear por entre as pernas de Melissa, numa de chamar à atenção. Mel não se deixou distrair e, entretanto acabou por decidir fazer os cereais. Não conseguia resistir aos de chocolate com leite quente, por mais que pensasse em ''dieta'', era impossível. Não queria saber. 
-É só hoje! - prometeu para si.
Quando acabou e, depois de dar o leite ao Faísca, - que finalmente se calou- deslocou-se para a sala e sentou-se no sofá. Sabia que ainda tinha de ver o correio, porque até podia ter alguma coisa das empresas, mas decidiu ir mais tarde. Ainda estava absorvida naquela preguiça matinal e aquele pijama quentinho não a ajudava, nem lhe dava credibilidade suficiente para pensar em coisas demasiado sérias. 
Decidiu ligar o portátil para ver os mails. Quando a página tinha começado a carregar, o seu leal companheiro, deu um pulo para cima do sofá. Após as suas duas habituais voltas sobre ele, finalmente se enroscou a ela e focou-se no ecrã atento, depois de lhe fazer aquele olhar do género '' Agora sim, estou pronto!''. Adorava-o.
Quando a página abriu, engoliu em seco e o seu coração acelerou. Tinha um mail da melhor das empresas e não sabia como reagir. Aliás, nem sabia se tinha coragem suficiente para clicar em ''abrir'', antes de lhe dar uma coisa. Estava em pânico, mas lá decidiu que abriria. Depois de respirar fundo, clicou e tapou logo de seguida os olhos, com medo. Suspirou para manter a calma e decidiu destapa-los por fim. Para sua surpresa logo na segunda linha, depois daquelas mesquinhices todas do ''excelentissima'' e bla bla bla... Leu ''Foi aceite'' e ainda na quinta linha ''Teremos todo o gosto em ter alguém com as suas capacidades a trabalhar connosco''. Oh, não conseguia acreditar. Não é possível! Estava eufórica!! Tão eufórica que até pegara em Faísca e o agarrara para lhe dar um beijo no nariz. Oh, tinha que ligar à sua Mãe! Tinha que ligar à Mariana! Tinha que lhes contar. Oh, afinal a sorte ainda estava do seu lado.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta de Saudade III #



Olá minha grande estrela,

Hoje ganhei coragem para te escrever. Já alguns dias que o planeava, desde aquele sonho, mas a falta de palavras e coragem bloquearam as minhas mãos de todas as vezes que o tentava e, sem querer dava por mim focada nas teclas sem as tocar. Até mesmo agora estou com receio... Receio de esta carta não chegar até ti, receio de não conseguir explicar-te da melhor forma como me sinto. Mas... Não preciso de escrever, pois não? Tu sabe-lo sempre, quando estou bem ou mal... Quando preciso de ti. Sempre soubeste.
Durante estes 14 anos desejei todos os dias que voltasses para mim, para que regressássemos às nossas conversas de olhares inocentes e doces, às nossas brigas engraçadas, às nossas brincadeiras. Desejei poder ouvir-te de novo, relembrar a tua voz que se foi perdendo sem controlo no espaço e no tempo sem eu poder evitar. Ah, e eu pedi várias vezes, bem baixinho, que o presente deixasse de ser banhado em memórias passadas para ser recheado de momentos vivos. Momentos presentes ... 
No meio de todos os desejos, só te quis a ti, em carne e osso, ao meu lado. Queria sentir o teu abraço, entendes? Oh, esse sempre foi o primeiro da minha lista de desejos desde o dia em que partiste. O primeiro... E foi por isso que escrevi esta carta. Não para te pedir um abraço, mas para te agradecer por mo teres dado. Para te agradecer por me teres visitado e o teres realizado no melhor sonho da minha vida. Não foi um sonho qualquer, não estava apenas a dormir. Eu estava contigo. Sei o que vi. Sei o que senti. Eu vi-te, eu ouvi-te, eu abracei-te. Foi único. E Sabes? Agora já me lembro de novo da tua voz! Isso é impossível num sonho normal? É, não é? Sei que sim. Sei que foi real. Tenho a certeza. 
Gostava tanto de te conseguir explicar como me senti, a sensação de todas aquelas borboletas e andorinhas no meu estômago, o cheiro habitual da tua camisa, mas é tão difícil. Não consigo sequer parar de o recordar:
- Podes dar-me um abraço? - Disse-te timidamente.
- Claro que sim pequena!- respondeste passado alguns segundos, exactamente com a aquela expressão sincera e brilhante que costumavas fazer. Oh, ainda te ouço a dizê-lo. Ouço-te.
Não hesitamos em nos abraçar. Sinceramente? Foi o melhor abraço que alguma vez recebi. Melhor até que todos aqueles que já me deste até aos 4 anos e, não me importa se foi num sonho. Para muitos até pode parecer absurdo, mas para mim não. Aliás, para nós. Tu entendes-me.

Agora já não tenho mais saudades tuas. Não porque já não me fazes falta, mas porque estás todos os dias comigo. Afinal tinham razão quando disseram que eu tinha um anjo da guarda. Quando me sussurraram ao ouvido ''ele está contigo''. Foste-o tu, a toda a hora, todos os dias. Desculpa se algum dia desconfiei, se num dia de desespero pus em causa a tua presença. Não fiz por mal... Juro. Era somente a revolta a falar, a necessidade dos teus conselhos, dos teus mimos. Nesses momentos quase que ia usando as saudades que sentia contra mim. Não o fiz. Foste tu que não me deixaste? Se foste, obrigada por isso.  Obrigada por tudo. Obrigada por sempre! 
Olha, so mais uma coisa... Prometo-te que nunca te vou deixar, sim? Vou estar sempre contigo, tal e qual tu fizeste. Tal como continuas a fazer. Sempre.

Com amor,
 a tua pequena princesa.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ele para ela & Ela para ele X


O que será deles agora? Agora que não passam de meros corações a transbordar de amor, que foram afastados pelas circunstancias, devastados pelo destino. Porque é que o destino teima em os separar? Porquê? Se calhar estão errados quanto ao que sentem, se calhar não o deviam sentir... Talvez até eles sejam impossíveis pelo seu amor não estar marcada na linha do tempo. É isso.
Ambos passam pelos mesmos lugares em horas diferentes... São horas que os separam, é um relógio que os separa e não o sentimento. O sentimento de algum modo divaga pelo ar e sem explicação eles partilham-no sem saber. Não sabem. É esse o problema, precisam de saber, precisam de se ouvir, de se encontrar, um ao outro. 
Como tal pode ser interrompido por aquele relógio? Oh, não pode, não pode. 
Eles já não existem sem aquela sensação e, se existem é porque têm a esperança de se ter um dia. Esperança... É ela que os guia todos os dias para que não desistam de lutar contra a aflição do tempo, contra aqueles loucas circunstancias que os magoam e os separam. 
Ela vive numa tempestade interior constante por sentir que algo, pela primeira vez na vida, a pode tirar da melancolia, do fundo daquele poço triste que nem uma pinga de água tem para lhe limpar as feridas. Sente que ele pode ser lhe trazer tudo aquilo que nunca teve, tudo aquilo que nunca sentiu, que pode finalmente ser feliz. Já ele, vive numa tempestade por ter entendido que até então nunca vivera, que fora fútil. Apercebeu-se que a alegria da vida não estava nos objectos. Entendeu que esses podem ser descartados a qualquer momento e que não deixam saudades. Descobriu o que era a saudade. Fora ela que a trouxera para ele num embrulho bonito. Parecia-lhe um presente simples inicialmente, mas não era. Trazia muito mais que a aparência, trazia toneladas e toneladas de amor, que nunca iria saber onde os haveria de guardar. Oh, tanto amor não cabia no mundo.

Será que o destino os quer separar? Ou será que quer tardar o reencontro para ver até onde o amor deles pode ir? Bem, isso só o tempo o dirá.