quarta-feira, 1 de julho de 2015

E tu, já suplicaste muito hoje?



Um dia ouvi algures que no amor não se suplica, que no amor não se deve ser egoísta. Fiquei a matutar naquilo o resto do dia.
Afinal de contas, o que é o amor senão o maior dos egoísmos? Senão o único egoísmo bonito que existe? Ah, pois não amamos certamente porque queremos apenas dar amor, dar parte nós para fazer alguém feliz. Mesmo que possa parecer mal dizê-lo, amamos também porque queremos recebe-lo, porque alguém nos faz sentir especial e único no meio de milhares de pessoas. Além disso,  recebemos uma montanha de alegria com um pack de borboletas na barriga incluído. Haverá melhor?
O mimo aquece o coração e retoca a alma de tons bonitos. Oh, o egoísmo do amor é bonito porque é equilibrado, mesmo que o amor seja o maior desequilíbrio conhecido até então. Irónico não? O desequilíbrio que nos equilibra. O desequilíbrio que nos põe de pé. 
Ah, e o que é amar senão um vicio sufocante que nos faz suplicar por mais? Suplicar pelo dia seguinte para voltar a vê-lo, suplicar por uma vida inteira ao seu lado, suplicar por ver aquele sorriso a todas as horas e segundos enquanto secretamente prometes ao universo que vais ser a melhor pessoa do mundo com intuito de suborno. Amar é suplicar por felicidade, suplicar por um beijo, por um abraço, por um olhar ou até mesmo por um passeio à beira mar. 
O amor é isto... E não só.
 E tu, já suplicaste muito hoje?

domingo, 31 de maio de 2015

Quatro primaveras, oitenta e quatro invernos


Vejo uns pézinhos pequeninos de tamanho 27 a correr de forma desajeitada num corpo vestido de quatro primaveras amarelas. São quatro primaveras marcadas e claro, o seu vestido amarelo favorito. Ah, e lá vai a menina de sorriso a nascer no rosto com os seus longos e belos cabelos castanhos a voar. O motivo dos seus cabelos esvoaçantes? O vento, pois! E do sorriso? O senhor de cabelo branco já com 84 Invernos. Unha e carne não será a melhor maneira de os definir, mas talvez alma e coração. Coração de um, alma do outro. Dois mundos distanciados por épocas distintas, separadas por idades e unidos por um amor inigualável e raro.
Não são necessárias décadas para aprender com alguém e muitas das vezes não são precisas lições para nos fazerem admira-la. São palavras que são ditas sem dizer, que são substituídas por simples gestos. São olhos carinhosos que nos fazem aprender o que é a bondade, e que de facto o mundo é bem mais bonito se amarmos.
Os anos passaram... Tu viajaste para uma terra distante e ela cresceu. Hoje tem 20 primaveras e tu 100 invernos. Embora agora mulher, continua a ter aquele sorriso infantil quando o teu nome é pronunciado e claro a lágrima no canto do olho teima em espreitar. Continuas a ser o dono dos seus segredos, os braços que a sustentam, a saudade que a tornou  mais forte.
Será sempre em ti em quem ela vai pensar nas maiores derrotas e vitórias. É para ti que vai olhar quando acabar o curso, quando tiver o primeiro filho, a primeira casa. Quando se casar és tu que vais estar na fila da frente, ela promete-te. Saberá  que lá estás no momento em que sentir o típico aroma de sabonete florar, no ar. E aí sim, terá a certeza que como sempre, estarás com uma das tuas melhores camisas vestidas. Promete-te também que te vai sorrir. Oh, e é a ti que vai agradecer por tudo que se tornou.
Ah e não importa as primaveras e os invernos passados, porque no final do dia, serão sempre a princesa e o rei do reino das quatro estações. 

sábado, 30 de maio de 2015

Somos Instantes


   

Somos feitos de instantes. Matéria dispersa por momentos, guiada por ventos. Reduzimo-nos a pedaços de nada que se esfarelam cronologicamente. Somos então uma insanidade louca de constante perda que julgamos ser vitória? Perdemos vida à medida que os ponteiros das horas avançam, segundo a segundo, para aquilo que desconhecemos. Nascemos para viver ou para morrer?
Toda a noção de perda abafa a alma humana, faz confusão, atrapalha o ser e por esse mesmo motivo optamos pela impossibilidade de alterar a condição do cosmos, ou a nossa condição. Então, cada instante, passa a ser a vitória sobre o instante anterior, o tempo passa a ser o ganho de vida, o caminho para algo melhor. Porque não ser, então, um pedaço de tudo em vez de um mero acaso do nada? Permanecemos na insanidade. Somos a insanidade que anseia por felicidade. 
Sim, somos instantes. Somos constantes.