domingo, 9 de agosto de 2015

A brisa



O olhar incerto foca-se no horizonte. Uma brisa. Uma brisa leva-lhe os cabelos pelo ar algures naquela singela varanda. Os olhos fecham e o sono parece por momentos ocupar-lhe o ser. Boceja e abre os olhos. A brisa torna a embater nos seus cabelos e as sensações parecem agora ainda mais vivas com o cansaço... Como se cada partícula de si senti-se todos os movimentos do universo, cada colisão, cada raio, cada chilrear, cada brisa. Como se cada átomo seu sorrisse ao vento e ele lhe respondesse assim, levemente. 
Fecha os olhos. Agora na cama, as células já não parecem tão vivas, o sono parece estar a contagia-la. A brisa pareceu ter se despedido de si e agora no leito, cada parte sua parecia dizer adeus ao real. O surreal aproximava-se assim como o sonho. Será o sonho surreal, ou a vida?
O corpo parece agora ter fugido e a mente estar em outro lugar. O corpo naquele momento parece não ter função e a realidade da mente parece comandar tudo. Será que a mente comanda o mundo? 
Não há tempo para perguntas, o cansaço começa a perturbar e ela ali fica. Ela, o sono, o sonho, a mente... e tudo parece bem melhor assim.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Fica só esta manhã, todos os dias.


Fica. Fica só esta manhã para podermos ver o amanhecer emaranhados no lençol. Fica só, para ela apreciar o teu sono antes de acordares, para ela te olhar, para analisar cada traço teu.  Fica. Fica só esta manhã, todos os dias.
E ficaram. Todos os dias, parados a contemplarem-se durante aparentemente horas que não passavam de meros segundos. O tempo pára. O tempo descontrola-se. O tempo deixa de ser tempo.  Ah, e o olhar percorre cada linha do corpo como se a sua sobrevivência dependesse de cada uma delas. Como se o processo de inspirar dependesse do olhar. O sufoco da vida atenua, a aflição do terror desvanece, aos poucos, silenciosamente com o olhar. E as trevas parecem fugir, o coração parece aquecer e o corpo envolvido no abraço volta a sentir-se seguro.
Fica. Fica só esta manhã, todos os dias. E ficaram.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Quando o tempo não cura


O tempo parece não curar. Todos os medos parecem vir à tona numa mera lembrança, pondo em causa toda a confiança construída durante anos. A fortaleza e os seus guerreiros muros parecem desabar. A alma fica descoberta. Despida. Tudo pára. Tudo vai. O corpo fica, quieto, atado sem corda. Oh e a voz fica silenciada, as palavras evaporam. Nada parece ter controlo. Tudo perde o sentido por instantes.  
Ah, e o cheiro da maresia não parece atenuar mais o ritmo triste do coração, o tão singelo vento não parece levar as dores. As confissões da alma permanecem algures entre o cruzamento das ondas, e o sussurrar dos aromas parece não amparar mais os seus passos. O céu fica negro, a esperança é consumida pelas trevas. A alma vai, a alma vem. A praia fica fria e o coração gela. Quando o tempo não cura a alma fica descoberta. Despida. Tudo pára. Tudo vai.