sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cicatrizes


A noite soalheira trás consigo lágrimas de revolta. Um grito de guerra ecoa no quarto e ninguém ouve. Aliás nunca ninguém o ouviu, apesar de ainda hoje ele ali ecoar. Aquelas quatro paredes sombrias teimam em absorver o som da revolta, toda a amargura, toda a dor. Como se a impedisse de ser salva. 
As marcas do passado permanecem, as feridas vão sarando mas as cicatrizes ficam para recordar aquilo que o tempo supostamente estaria apto para fazer desaparecer... mas não fez. A mente, por vezes, pode mesmo ser a nossa pior inimiga e sem contar as lembranças travam uma batalha com o nossa própria alma. Ah, e os cantinhos mais bem protegidos do nosso ser são rapidamente bombardeados e nós sem defesas, ali permanecemos, no quarto, como se num campo de batalha estivéssemos. O passado volta por momentos e aquele local com a ajuda da mente cria o cenário dos seus medos, o cenário daquele que poderia ter sido o seu fim. 
Incrível como a nossa mente faz mal à nossa própria alma, ao nosso próprio ser. Por vezes tornam-se guerras de meses, outras vezes de anos, torna-se num vicio sagaz, como se o medo sucumbisse todas as defesas, ou nós próprios desistisses de nos defender. É preciso coragem para sair da escuridão, para deixar as quatro paredes, para deixar de olhar para as cicatrizes. É preciso coragem para viver.

domingo, 30 de agosto de 2015

A cura está na vida


É uma admiradora de sensações. Do toque, do olhar, de tudo o que faz a alma vibrar. O coração palpita a um ritmo obscuro e pesaroso e a cura está mesmo aos seus olhos. A cura está na vida. 
Ah, e sente cheiro da maresia, expira os males e de improviso correr parece o melhor remédio. Correu, correu sem parar, sem pensar e, perdeu-se algures em si... Talvez a melhor maneira de nos encontrarmos seja mesmo nos perdermos. 
Sentiu, cada pedra da praia, cada pinga de orvalho e de pés na areia, de cabelo ao vento  a libertação fez-se sentir em cada parte da pele. A cura estava ali. A cura estava em viver.

domingo, 9 de agosto de 2015

A brisa



O olhar incerto foca-se no horizonte. Uma brisa. Uma brisa leva-lhe os cabelos pelo ar algures naquela singela varanda. Os olhos fecham e o sono parece por momentos ocupar-lhe o ser. Boceja e abre os olhos. A brisa torna a embater nos seus cabelos e as sensações parecem agora ainda mais vivas com o cansaço... Como se cada partícula de si senti-se todos os movimentos do universo, cada colisão, cada raio, cada chilrear, cada brisa. Como se cada átomo seu sorrisse ao vento e ele lhe respondesse assim, levemente. 
Fecha os olhos. Agora na cama, as células já não parecem tão vivas, o sono parece estar a contagia-la. A brisa pareceu ter se despedido de si e agora no leito, cada parte sua parecia dizer adeus ao real. O surreal aproximava-se assim como o sonho. Será o sonho surreal, ou a vida?
O corpo parece agora ter fugido e a mente estar em outro lugar. O corpo naquele momento parece não ter função e a realidade da mente parece comandar tudo. Será que a mente comanda o mundo? 
Não há tempo para perguntas, o cansaço começa a perturbar e ela ali fica. Ela, o sono, o sonho, a mente... e tudo parece bem melhor assim.