quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Fiz as malas. Deixei-a.




Fiz as malas. Deixei-a.
Depois de uma vida deixei o que nunca foi meu. Nunca foi minha, nunca fui dela. Nunca dela própria chegou a ser.
Durante estes vinte anos assisti à catastrófica decadência daquilo que ela foi. Hoje já não é quem amei. Não a conheço. Durante estes anos vi o sorriso mais bonito do mundo a esfumar-se em olheiras pesadas, em olhares perdidos. Vi o brilho da elegância que tinha a sumir-se num corpo frio e apático. Vi fragilidade naquela que fora outrora a mais forte das mulheres.
Olhei-a com amor e não vi olhar que me amasse.
Deixei-a. Deixei-a por amor e por falta dele. Deixei-a por egoísmo. Deixei-a só, dentro daquele olhar distante que já nada sente, de que já de nada vive, nem vê. Ah, aqueles olhos... Aqueles olhos não vêm, estão algures adormecidos no espaço e não precisam apenas de ser acordados mas de se acordar. Fui cobarde, fui indecente, mas amei-a. Ainda a amo. E por amar deixei-a para que pudesse voltar a ver.
Ontem fiz as malas. Deixei-a.


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sabias que somos uma ilusão?


A tua presença distrai-me a alma, aquece-me o coração. Ilude-me. 
És ilusão quando me olhas em silencio, bem sei. Sou ilusão quando o teu abraço me conforta, quando pertenço mais a ti do que a mim. Somos. Somos ilusão quando no meio do espaço nos perdemos e, perdemos o mundo, perdemos o tempo, perdemos as palavras. Quando perdemos encontramo-nos, quando nos encontramos ganhamos. Vivemos.
Sabias que somos uma ilusão? A ilusão mais bonita do mundo, meu amor.

sábado, 14 de novembro de 2015

Foi então que a escrita a salvou


A mente deambulava por aí. O corpo perdido seguia-a, sem destino, algures numa noite de inverno. Foi então que a escrita surgiu ao virar da esquina e, de chocolate quente na mão, foi assim que tudo começou. 
As palavras abraçaram-na, trouxeram-lhe paz, acolheram-na no calor dos significados e abrigaram-lhe os receios quando tudo parecia desabar. Com elas, os silêncios deixaram de ser vazios e os barulhos das tempestades da vida passaram a ser um peso leve na caneta. Com o passar dos anos as palavras foram criando frases, as frases foram criando historias e quando deu por si, a sua historia já era escrever. 
Ela deambulava por aí... e foi então que a escrita a salvou.