quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Restava


Restava. Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto. Eu e as doze badaladas. Eu e a dor. Eu só. Oh, e cada badalada rasgava-me o peito juntamente com o ecoar das palavras que tinhas dito antes de saíres por aquela maldita porta.
Pedi.te. Pedi-te que ficasses. Pedi-te por entre lágrimas feridas para ser apenas tua mais uma noite. Queria-te para mim da maneira mais egoísta que pudesses imaginar. Ah meu anjo, mas o que eu queria mesmo era que tivesses ficado. Ficado naquela noite, para podermos ver o amanhecer emaranhados no lençol, para apreciar o teu sono antes de acordares, para te convencer a ficar.
Lembras-te de quando ficavas? Quando fazíamos o tempo parar? Quando o tempo deixava de ser tempo? 
Naquela noite, depois de ires, restei eu. Eu a suplicar por cada linha do teu rosto, como se a minha sobrevivência dependesse de cada uma delas. Como se o processo de inspirar dependesse do olhar. Sufoquei por não te olhar. Sufoquei em frente àquela maldita porta e nem por um segundo a aflição do terror desvaneceu. O coração falhou e o corpo arrefeceu envolvido num abraço que não voltava mais. E ali restava eu, só. Eu e a dor. Eu e as doze badaladas. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto.Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Resta-nos amar a saudade



A saudade faz vibrar a memória, inquieta os sentidos. A saudade é boa quando nos faz reviver, viajar no tempo e amar pedaços do passado. O mau da saudade é também isso mesmo. É por vezes as saudades se focarem no que já não está presente para nos aconchegar.
A saudade não aconchega, desassossega a essência da alma enquanto ela própria se tenta recompor. A alma nem sempre se recompõe. A saudade doí, aperta o coração mas faz sorrir por entre as melodias salgadas das lágrimas. O passado já não volta, quem foi também não. Resta-nos amar o que fica. Resta-nos amar a saudade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Fiz as malas. Deixei-a.




Fiz as malas. Deixei-a.
Depois de uma vida deixei o que nunca foi meu. Nunca foi minha, nunca fui dela. Nunca dela própria chegou a ser.
Durante estes vinte anos assisti à catastrófica decadência daquilo que ela foi. Hoje já não é quem amei. Não a conheço. Durante estes anos vi o sorriso mais bonito do mundo a esfumar-se em olheiras pesadas, em olhares perdidos. Vi o brilho da elegância que tinha a sumir-se num corpo frio e apático. Vi fragilidade naquela que fora outrora a mais forte das mulheres.
Olhei-a com amor e não vi olhar que me amasse.
Deixei-a. Deixei-a por amor e por falta dele. Deixei-a por egoísmo. Deixei-a só, dentro daquele olhar distante que já nada sente, de que já de nada vive, nem vê. Ah, aqueles olhos... Aqueles olhos não vêm, estão algures adormecidos no espaço e não precisam apenas de ser acordados mas de se acordar. Fui cobarde, fui indecente, mas amei-a. Ainda a amo. E por amar deixei-a para que pudesse voltar a ver.
Ontem fiz as malas. Deixei-a.