quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A melhor maneira de nos encontrarmos é...



A minha cabeça era a minha maior inimiga, o meu maior desafio. Todas as noites e todas as manhãs tentava lidar comigo própria. Nunca consegui. Era um ciclo vicioso, fechava-me e ainda mais me queria fechar. Escondi-me e ainda mais me queria esconder. A minha mente estava a destruir-me. Eu estava a destruir-me. A depressão estava a fazer com que me perdesse, pouco a pouco, de uma forma psicologicamente dolorosa. Chegou a um ponto que não aguentei, e de alma rasgada e coração pousado em cima da mesinha de cabeceira desisti de buscar a forma de coloca-lo no sitio.
Encaminhei-me para a praia, sem ritmo nas pisadas e de corpo desleixado. Fazia-o todos os dias. Mas naquele finas de tarde era diferente, a determinação era diferente. O coração palpitava a um ritmo obscuro e pesaroso e a cura estava mesmo aos meus olhos. Só o tinha de descobrir.
Percorri o passadiço, descalcei as sabrinas e coloquei os pés na areia. Não sabia qual destino teria aquele final de tarde. Estava sozinha, doente, gelada por fora, destruída por dentro. Só queria voltar a sentir. Foi então que me concentrei. Olhei para o horizonte e comecei a correr de olhos fechados.
Só queria senti de novo. Sentir o cheiro da maresia, sentir o coração a palpitar. Sentir cada grão, cada pinga de orvalho. Sentir, sentir, sentir. Mil vezes sentir. Queria sentir o cabelo ao vento, os pés molhados, o sal nas bochechas. Queria sentir-me. Então corri. Corri sem parar, corri até que me perdi. Perdi-me algures em mim. Quem sabe se a melhor maneira de nos encontrarmos não é mesmo nos perdermos? Afinal de contas a cura estava mesmo ali. A cura estava em viver.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Vamos?


Corre meu amor. Vem-me buscar. Quando chegares vamos ser. Vamos pôr alma no desalmado. Vamos ser opostos. Vamos ser urgentes. Oh, chegaste.
- Vamos?
- Vamos.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Faltou tentar o impossivel


Lembro-me de como tudo começou, do dia em que recebi a noticia. Ligaste-me, contaste-me em sussurro e eu respondi-te quase muda que ia ficar tudo bem. A doença tinha chegado à cidade. Pior do que isso, tinha-se instalado na casa de alguém próximo. Leucemia, disse ela. As palavras ecoavam, fluíram no ar cheias de tristeza, cheias de nada. Vazio.
Os meses foram passando, a doença tomando conta daquilo que era teu. Eu bem via, roubava-te o corpo aos pouquinhos, tirava-te a vida sem pedir permissão. Dava-se ao luxo de usar a tua força. Houve semanas em que ficavas silenciosa. Pouco dizias. Eu sabia que era a dor, que sofrias e sorrias. Aquele veneno podia ter tomado conta de quase tudo, mas nunca do teu sorriso.
Quando disseram que estavas melhor, os nossos corações encheram-se de felicidade. Pensávamos que ia ficar tudo bem. Não ficou. A doença tinha-se fortalecido, por maldade dos céus ou por influência do diabo. Por ruindade ou por estupidez do mundo. Rapidamente puseram-te a dormir. Estavas agora enclausurada. Não percebi. Revoltei-me. Faltava fazer algo. Os médicos não estavam a esforçar-se o suficiente. Estavam a esquecer-se de ti. Eu queria ser médica. Ficar 24h por dia ou até inventar mais uma hora se fosse preciso para te ajudar. Queria que aquele pesadelo acabasse. Que parasses de sofrer. Se pudesse tinha-te dado metade das minhas forças só para que pudesses lutar contra tudo o que te fazia mal. Não era possível fazê-lo. Mas precisávamos de tentar. Precisávamos de tentar o impossível.
O tempo passou e com ele aprendi que a vida nos torna mais fortes com as dores, mas não invencíveis. Passou mais de um ano e sabes... A saudade já aperta.