sexta-feira, 6 de maio de 2016

Coração que veste negro


A melancolia outrora percorrera-lhe as veias. Era sangue envenenado que chegava ao coração e o pintava de negro; que impiedosamente lhe desalmava a alma; que lhe acelerava os dias, que lhe desacelerava as noites. Eram noites longas, onde os olhos decoravam as fissuras do tecto e os diferentes reflexos da lua no estore da janela. 
E os olhos viam até não poder ver, os olhos abriam até não poder abrir. Até as lágrimas ocuparem o lugar da visão. Até as lágrimas esvaziarem os espacinhos preenchidos de felicidade para os preencherem de uma perversa tristeza.
Um dia a melancolia se foi. Levou consigo demasiado, mas também deixou... Marcas ficaram. Ah, houveram fissuras que passaram do tecto para tudo aquilo que era seu. Para tudo aquilo que a fazia ''ser''. São fissuras que ficam. Permanecem. Conservam-se para a vida.
No entanto camadas de amor e carinho foram-na confortando, foram-na aconchegando até que no inverno tinha a cama mais quentinha de sempre. Uma cama que a protegia dos medos, que afastava a melancolia e lhe tratava das fissuras. Esses lençóis eram todos aqueles que contribuíram para que tudo melhorasse. Aqueles que fizeram com que a melancolia que outrora lhe percorrera as veias não voltasse mais.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cansaço


De mente vazia de tanto, de corpo cansado de tão pouco. Os comprimidos curam a dor física e o corpo suspira de alívio. A mente pede socorro, o coração permanece em batidas aceleradas. Há algo em ti que não consegues explicar. A alma tenta acalmar-te. Os teus próprios pensamentos tentam influenciar-te positivamente, forçando-te a consciencializar algo que nem mesmo o teu inconsciente acredita. Há tanto pensamento e tão pouco. Tão poucas conclusões. Poucas palavras ditas. E silêncios. Infinitos silêncios. Infinitas pausas entre cada silêncio. Entre cada não pensamento. Entre cada suspiro. Entre cada cansaço. Oh, existem vazios que não se podem preencher... Cansaços que não se podem apagar.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

A corrente


A corrente está a leva-la como se de um misero pedacinho de areia se tratasse... Um pedacinho de areia por entre milhões de outros que, tal com ela, são levados. Milhões que são puxados pela mesma corrente, sem se questionar ''porquê?'', sem perguntar ''como?'' ou ''eu quero ir?''. E todos estes grãos vão, porque sim; Porque é para ir por ali; Porque todos vão por ali; Porque o caminho correto é por onde a corrente vai; Porque tem de ser.
Poucos são os grãos corajosos, que se tornam pesados o suficiente para parar a meio, que se enchem de coragem para virar costas à corrente. E porquê? Talvez porque no seu intimo a sua vontade fosse seguir o trajeto ''não-padrão'', mas têm medo. Pelo caminho, esses grãos corajosos têm varias dificuldades. A corrente é forte assim como o peso das opiniões circundantes. As opiniões contrárias deixam-nos débeis, amedrontados, porque o enfrentar da corrente leva-nos a locais desconhecidos e, talvez, mais complexos. Aí surge o medo de arriscar. Metade dos corajosos desistem, soltam-se e deixam-se levar. A outra metade continua a lutar. 
No fundo a vida acaba por ser um pouco assim. Nós somos os grãos. O rio é a vida. A corrente é a ''sociedade-padrão''. Cabe-nos decidir se queremos ir ''por ir'', ou então ir com um motivo. Ir porque algo nos desafia a alma, porque algo nos desperta os sentidos, nos acelera o coração, mesmo que seja por entre as rajadas do curso de agua, mesmo por entre palavras que magoam.
Oh, mas não é bem mais bonito navegar quando temos motivos?