quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pagar pelo Direito de Sobreviver


Olhamo-nos, aterrorizados pelo pânico, aturdidos pela angústia da separação. Olhamo-nos de olhos em lágrimas e de coração despedaçado; E o barco ia se afastando enquanto eu em terra o via a se distanciar. Enquanto a minha alma  aos poucos era arrancada de mim e levada com ele. Vi o olhar dela lá no fundo. Mal eu sabia que era o último.
Os seus olhos estavam agora perdidos naquele imenso azul, num misero barco, em direção à Grecia. Eu cá fiquei... Chorei todos os dias quando percebi que o dinheiro não ia chegar para que os dois pudéssemos atravessar a fronteira. Chorei de tristeza por mim, de felicidade por ela, de medo por nós.
Hoje o olhar dela sumiu. Hoje estou sozinho porque não fugi da morte. Hoje estou sozinho porque a minha esposa ao fugir para exercer o seu direito à vida acabou por não resistir. Mas que ironia é esta?

Desde quando é que faz sentido pagar pelo direito de sobreviver?


Fictício - Carta de um Refugiado

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Não há matemática que resolva a escassez de amor




Olá meu amor,


Tantos anos passados e eu nunca te escrevi. Não sei se por preguiça ou por desleixo meu. Sempre disseste que não tinha habilidade para as palavras e que só entendia de números e equações. Talvez tivesses razão - tinhas sempre! Logo tu, sempre tão dona do teu nariz, sempre tão refilona mas ao mesmo tempo tão meiga e doce. E eu? Eu sempre tão preocupado com integrais e derivadas. Eu sempre tão banhado de desculpas e ausências. Eu sempre tão distraído de ti, sempre tão longe de nós.

Hoje que partiste, percebo que a matemática de nada me valeu. Hoje que partiste, percebo que não existem fórmulas que te tragam de volta. Hoje que partiste, percebo que o meu semblante carregará para sempre o pedaço de destino perdido que sou, numa infinidade de estonteantes e singulares possibilidades de decisões que podia ter tomado. Hoje que partiste, estou aprisionado num vazio que os números não preenchem. Enterrado no fardo e na culpa - porque hoje sozinho, revejo-me nas palavras que um dia me escreveste:

‘’Sim a matemática resolve problemas reais - colocou prédios ao alto, criou computadores, permitiu ir à lua e voltar. Sim a matemática soluciona questões da vida, mas não ensina a viver João! Não ensina a cuidar. Não existem equações que definam a percentagem de carinho ou a quantidade de atenção que deves dar; O tempo que deves dedicar a ser feliz também não se conta, não se calcula. E eu até posso não entender nada de matemática, mas compreendo a vida. Viver não é certo nem preciso como os cálculos. Nunca te esqueças: Não há matemática que resolva a escassez de amor.’’

(Sempre tiveste razão)

Com saudades,


O teu marido e (solitário) professor de matemática

sábado, 20 de maio de 2017

Fala-lhe de silêncios


Um mistério por desvendar, uma alma por descobrir;  São ironicamente pedaços daquilo que dói que a fazem existir. Não existem pois mãos que agarrem, braços que envolvam, quando o interior se consome numa dolorosa tortura ardente. Meu bem, uma alma ferida só consegue ser tocada pela mente. E de olhar ausente e uma dor sufocante, não existe nada num sincero sorriso que não se torne radiante.
Oh, num mundo tão cheio de palavras adulteras e sentidos corrompidos, fala-lhe de silêncios. Fala-lhe daquilo que ela ainda pode ser, fala-lhe daquilo que ainda pode cumprir. Fala-lhe de como a vida corre. Como o teu olhar e como os teus olhos se perdem nos dela enquanto o vento corre, enquanto a vida corre. Enquanto se falam com silêncios, sem falar. Porque tu sabes que ela é um mistério por desvendar, uma alma por descobrir. No fundo, são ironicamente pedaços daquilo que a inspira que a fazem existir.