domingo, 30 de agosto de 2015

A cura está na vida


É uma admiradora de sensações. Do toque, do olhar, de tudo o que faz a alma vibrar. O coração palpita a um ritmo obscuro e pesaroso e a cura está mesmo aos seus olhos. A cura está na vida. 
Ah, e sente cheiro da maresia, expira os males e de improviso correr parece o melhor remédio. Correu, correu sem parar, sem pensar e, perdeu-se algures em si... Talvez a melhor maneira de nos encontrarmos seja mesmo nos perdermos. 
Sentiu, cada pedra da praia, cada pinga de orvalho e de pés na areia, de cabelo ao vento  a libertação fez-se sentir em cada parte da pele. A cura estava ali. A cura estava em viver.

domingo, 9 de agosto de 2015

A brisa



O olhar incerto foca-se no horizonte. Uma brisa. Uma brisa leva-lhe os cabelos pelo ar algures naquela singela varanda. Os olhos fecham e o sono parece por momentos ocupar-lhe o ser. Boceja e abre os olhos. A brisa torna a embater nos seus cabelos e as sensações parecem agora ainda mais vivas com o cansaço... Como se cada partícula de si senti-se todos os movimentos do universo, cada colisão, cada raio, cada chilrear, cada brisa. Como se cada átomo seu sorrisse ao vento e ele lhe respondesse assim, levemente. 
Fecha os olhos. Agora na cama, as células já não parecem tão vivas, o sono parece estar a contagia-la. A brisa pareceu ter se despedido de si e agora no leito, cada parte sua parecia dizer adeus ao real. O surreal aproximava-se assim como o sonho. Será o sonho surreal, ou a vida?
O corpo parece agora ter fugido e a mente estar em outro lugar. O corpo naquele momento parece não ter função e a realidade da mente parece comandar tudo. Será que a mente comanda o mundo? 
Não há tempo para perguntas, o cansaço começa a perturbar e ela ali fica. Ela, o sono, o sonho, a mente... e tudo parece bem melhor assim.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Fica só esta manhã, todos os dias.


Fica. Fica só esta manhã para podermos ver o amanhecer emaranhados no lençol. Fica só, para ela apreciar o teu sono antes de acordares, para ela te olhar, para analisar cada traço teu.  Fica. Fica só esta manhã, todos os dias.
E ficaram. Todos os dias, parados a contemplarem-se durante aparentemente horas que não passavam de meros segundos. O tempo pára. O tempo descontrola-se. O tempo deixa de ser tempo.  Ah, e o olhar percorre cada linha do corpo como se a sua sobrevivência dependesse de cada uma delas. Como se o processo de inspirar dependesse do olhar. O sufoco da vida atenua, a aflição do terror desvanece, aos poucos, silenciosamente com o olhar. E as trevas parecem fugir, o coração parece aquecer e o corpo envolvido no abraço volta a sentir-se seguro.
Fica. Fica só esta manhã, todos os dias. E ficaram.