quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Vamos?


Corre meu amor. Vem-me buscar. Quando chegares vamos ser. Vamos pôr alma no desalmado. Vamos ser opostos. Vamos ser urgentes. Oh, chegaste.
- Vamos?
- Vamos.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Faltou tentar o impossivel


Lembro-me de como tudo começou, do dia em que recebi a noticia. Ligaste-me, contaste-me em sussurro e eu respondi-te quase muda que ia ficar tudo bem. A doença tinha chegado à cidade. Pior do que isso, tinha-se instalado na casa de alguém próximo. Leucemia, disse ela. As palavras ecoavam, fluíram no ar cheias de tristeza, cheias de nada. Vazio.
Os meses foram passando, a doença tomando conta daquilo que era teu. Eu bem via, roubava-te o corpo aos pouquinhos, tirava-te a vida sem pedir permissão. Dava-se ao luxo de usar a tua força. Houve semanas em que ficavas silenciosa. Pouco dizias. Eu sabia que era a dor, que sofrias e sorrias. Aquele veneno podia ter tomado conta de quase tudo, mas nunca do teu sorriso.
Quando disseram que estavas melhor, os nossos corações encheram-se de felicidade. Pensávamos que ia ficar tudo bem. Não ficou. A doença tinha-se fortalecido, por maldade dos céus ou por influência do diabo. Por ruindade ou por estupidez do mundo. Rapidamente puseram-te a dormir. Estavas agora enclausurada. Não percebi. Revoltei-me. Faltava fazer algo. Os médicos não estavam a esforçar-se o suficiente. Estavam a esquecer-se de ti. Eu queria ser médica. Ficar 24h por dia ou até inventar mais uma hora se fosse preciso para te ajudar. Queria que aquele pesadelo acabasse. Que parasses de sofrer. Se pudesse tinha-te dado metade das minhas forças só para que pudesses lutar contra tudo o que te fazia mal. Não era possível fazê-lo. Mas precisávamos de tentar. Precisávamos de tentar o impossível.
O tempo passou e com ele aprendi que a vida nos torna mais fortes com as dores, mas não invencíveis. Passou mais de um ano e sabes... A saudade já aperta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Restava


Restava. Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto. Eu e as doze badaladas. Eu e a dor. Eu só. Oh, e cada badalada rasgava-me o peito juntamente com o ecoar das palavras que tinhas dito antes de saíres por aquela maldita porta.
Pedi.te. Pedi-te que ficasses. Pedi-te por entre lágrimas feridas para ser apenas tua mais uma noite. Queria-te para mim da maneira mais egoísta que pudesses imaginar. Ah meu anjo, mas o que eu queria mesmo era que tivesses ficado. Ficado naquela noite, para podermos ver o amanhecer emaranhados no lençol, para apreciar o teu sono antes de acordares, para te convencer a ficar.
Lembras-te de quando ficavas? Quando fazíamos o tempo parar? Quando o tempo deixava de ser tempo? 
Naquela noite, depois de ires, restei eu. Eu a suplicar por cada linha do teu rosto, como se a minha sobrevivência dependesse de cada uma delas. Como se o processo de inspirar dependesse do olhar. Sufoquei por não te olhar. Sufoquei em frente àquela maldita porta e nem por um segundo a aflição do terror desvaneceu. O coração falhou e o corpo arrefeceu envolvido num abraço que não voltava mais. E ali restava eu, só. Eu e a dor. Eu e as doze badaladas. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto.Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava.