Restava. Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto. Eu e as doze badaladas. Eu e a dor. Eu só. Oh, e cada badalada rasgava-me o peito juntamente com o ecoar das palavras que tinhas dito antes de saíres por aquela maldita porta.
Pedi.te. Pedi-te que ficasses. Pedi-te por entre lágrimas feridas para ser apenas tua mais uma noite. Queria-te para mim da maneira mais egoísta que pudesses imaginar. Ah meu anjo, mas o que eu queria mesmo era que tivesses ficado. Ficado naquela noite, para podermos ver o amanhecer emaranhados no lençol, para apreciar o teu sono antes de acordares, para te convencer a ficar.
Lembras-te de quando ficavas? Quando fazíamos o tempo parar? Quando o tempo deixava de ser tempo?
Naquela noite, depois de ires, restei eu. Eu a suplicar por cada linha do teu rosto, como se a minha sobrevivência dependesse de cada uma delas. Como se o processo de inspirar dependesse do olhar. Sufoquei por não te olhar. Sufoquei em frente àquela maldita porta e nem por um segundo a aflição do terror desvaneceu. O coração falhou e o corpo arrefeceu envolvido num abraço que não voltava mais. E ali restava eu, só. Eu e a dor. Eu e as doze badaladas. Restava eu, por entre aquelas paredes levantadas ao alto.Uma alma assombrada, um amor reduzido a pó. Restava.