domingo, 22 de maio de 2016

Coração Salgado #1




A angustia era salgada, e o sangue era mar que lhe percorria nas veias. As batidas aceleradas e destrutivas do seu coração assemelhavam-se à revolução das ondas. Tudo parecia perdido, fora de controlo. O embater nas rochas era demasiado doloroso e os danos que daí foram surgindo pareciam irreparáveis. Sentia-se perdida no oceano, perdida naquilo que era seu, naquilo que não sabia ser.
Quem era? Onde estava? Qual o motivo para tudo o que lhe amargurava a alma, lhe salgava o coração, lhe envenenava o corpo e os pensamentos? 
Tudo o que mais desejava era um desfecho para aquele barulho cruel que ensurdecia, que desassossegava. Queria sentir o cheiro da maresia, ser a maré cheia e vasa junto à costa. Queria a paz daquilo que é leve. Queria a serenidade do corpo que se estava a apagar, do tempo que se desvanecia, do controlo que se perdia.Tudo podia melhorar, mas nem tudo se podia apagar.
O passado estava lá e no fundo faria para sempre parte de si. Aquele mar seria sempre o seu lar. Restava torna-lo um lugar melhor para ficar. Um lugar bonito para amar.




sexta-feira, 6 de maio de 2016

Coração que veste negro


A melancolia outrora percorrera-lhe as veias. Era sangue envenenado que chegava ao coração e o pintava de negro; que impiedosamente lhe desalmava a alma; que lhe acelerava os dias, que lhe desacelerava as noites. Eram noites longas, onde os olhos decoravam as fissuras do tecto e os diferentes reflexos da lua no estore da janela. 
E os olhos viam até não poder ver, os olhos abriam até não poder abrir. Até as lágrimas ocuparem o lugar da visão. Até as lágrimas esvaziarem os espacinhos preenchidos de felicidade para os preencherem de uma perversa tristeza.
Um dia a melancolia se foi. Levou consigo demasiado, mas também deixou... Marcas ficaram. Ah, houveram fissuras que passaram do tecto para tudo aquilo que era seu. Para tudo aquilo que a fazia ''ser''. São fissuras que ficam. Permanecem. Conservam-se para a vida.
No entanto camadas de amor e carinho foram-na confortando, foram-na aconchegando até que no inverno tinha a cama mais quentinha de sempre. Uma cama que a protegia dos medos, que afastava a melancolia e lhe tratava das fissuras. Esses lençóis eram todos aqueles que contribuíram para que tudo melhorasse. Aqueles que fizeram com que a melancolia que outrora lhe percorrera as veias não voltasse mais.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cansaço


De mente vazia de tanto, de corpo cansado de tão pouco. Os comprimidos curam a dor física e o corpo suspira de alívio. A mente pede socorro, o coração permanece em batidas aceleradas. Há algo em ti que não consegues explicar. A alma tenta acalmar-te. Os teus próprios pensamentos tentam influenciar-te positivamente, forçando-te a consciencializar algo que nem mesmo o teu inconsciente acredita. Há tanto pensamento e tão pouco. Tão poucas conclusões. Poucas palavras ditas. E silêncios. Infinitos silêncios. Infinitas pausas entre cada silêncio. Entre cada não pensamento. Entre cada suspiro. Entre cada cansaço. Oh, existem vazios que não se podem preencher... Cansaços que não se podem apagar.