segunda-feira, 13 de junho de 2016

Coração Salgado #2


Quando o sono é vazio, as manhãs são mais leves... Oh, e quando o sono é vazio a recordação não teima em assombrar a memória. Quando o sono é vazio o corpo levanta e segue sem lembrar aquilo que não deve ser lembrado. E quando o sono não é silenciado? Aí o corpo lembra e acorda aquilo que normalmente se tenta manter adormecido. Acordas para o vazio, ironicamente embalada dentro de um sonho de escuridão. O sangue torna-se veneno, a alma amargurada, o corpo pesado, o dia sem sentido.
Quando os sonos não são vazios, as manhãs são dolorosas. Quando os sonos não são vazios a recordação estremece a alma e o sono é sonhado naquilo que faz doer... O vocabulário some, a expressão torna-se confusa, os movimentos imobilizados e o nó na garganta teima em não deixar respirar. Quando os sonos não são vazios os silêncios tornam-se infinitos.

domingo, 22 de maio de 2016

Coração Salgado #1




A angustia era salgada, e o sangue era mar que lhe percorria nas veias. As batidas aceleradas e destrutivas do seu coração assemelhavam-se à revolução das ondas. Tudo parecia perdido, fora de controlo. O embater nas rochas era demasiado doloroso e os danos que daí foram surgindo pareciam irreparáveis. Sentia-se perdida no oceano, perdida naquilo que era seu, naquilo que não sabia ser.
Quem era? Onde estava? Qual o motivo para tudo o que lhe amargurava a alma, lhe salgava o coração, lhe envenenava o corpo e os pensamentos? 
Tudo o que mais desejava era um desfecho para aquele barulho cruel que ensurdecia, que desassossegava. Queria sentir o cheiro da maresia, ser a maré cheia e vasa junto à costa. Queria a paz daquilo que é leve. Queria a serenidade do corpo que se estava a apagar, do tempo que se desvanecia, do controlo que se perdia.Tudo podia melhorar, mas nem tudo se podia apagar.
O passado estava lá e no fundo faria para sempre parte de si. Aquele mar seria sempre o seu lar. Restava torna-lo um lugar melhor para ficar. Um lugar bonito para amar.




sexta-feira, 6 de maio de 2016

Coração que veste negro


A melancolia outrora percorrera-lhe as veias. Era sangue envenenado que chegava ao coração e o pintava de negro; que impiedosamente lhe desalmava a alma; que lhe acelerava os dias, que lhe desacelerava as noites. Eram noites longas, onde os olhos decoravam as fissuras do tecto e os diferentes reflexos da lua no estore da janela. 
E os olhos viam até não poder ver, os olhos abriam até não poder abrir. Até as lágrimas ocuparem o lugar da visão. Até as lágrimas esvaziarem os espacinhos preenchidos de felicidade para os preencherem de uma perversa tristeza.
Um dia a melancolia se foi. Levou consigo demasiado, mas também deixou... Marcas ficaram. Ah, houveram fissuras que passaram do tecto para tudo aquilo que era seu. Para tudo aquilo que a fazia ''ser''. São fissuras que ficam. Permanecem. Conservam-se para a vida.
No entanto camadas de amor e carinho foram-na confortando, foram-na aconchegando até que no inverno tinha a cama mais quentinha de sempre. Uma cama que a protegia dos medos, que afastava a melancolia e lhe tratava das fissuras. Esses lençóis eram todos aqueles que contribuíram para que tudo melhorasse. Aqueles que fizeram com que a melancolia que outrora lhe percorrera as veias não voltasse mais.