domingo, 3 de junho de 2018

Mil e um sonhos não cabem dentro de uma mão


De mãos atadas, de coração vazio, foi essa a semente que a dor plantou. Uma semente que envenena a vida. Uma semente que corrompe a esperança. Então ficas de mãos atadas e de coração vazio, a desejar que o que resta do teu jardim não seja terra, que o que resta do teu corpo não seja matéria, que o que resta da tua alma não seja ar. E sonhas, de mãos atadas, de coração vazio, com o dia em que o que te rodeia se assoberbe com o infinito e que o infinito se empregne naquilo que és, e que aquilo que és irradie a semente que destruiu o teu jardim. 
Então ficas de mãos atadas e de coração vazio, a desejar que o que resta do teu jardim não seja terra, que o que resta do teu corpo não seja matéria, que o que resta da tua alma não seja ar. E dizes que tens o coração vazio e as mãos atadas... Mas coração vazio não sonha - Coração que sonha procura com a alma. E alma que procura é muito mais do que ar. Dizes que tens as mãos atadas mas vejo-te na busca e na ansia, a desejar o universo até aos ossos, a querer agarrar uma infinidade de sonhos. Mas mil e um sonhos não cabem dentro de uma mão.
Então vais, de mãos atadas, de coração aparentemente vazio porque foi essa a semente que a dor plantou. Então vais, buscar aquilo que dará brilho ao teu jardim. E a sonhar mil e um sonhos, porque mil e um sonhos cabem dentro de um coração.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O que vai aqui dentro?


Vejo-te sentada na berma da cama, de cabelo despenteado, de olhar focado no vazio e pegunto-me no que pensas. Pestanejas e inspiras fundo, por longos segundos, como se inspirar representasse o enredo de toda uma encenação, ou então, a malha fina que sustenta uma vida suspensa entre duas montanhas. Um inspirar que reflete o medo, da encenação e da malha. Da falha. Da queda. 
Vejo-te sentada na berma da cama, de cabelo despenteado, de olhar focado no vazio e pegunto-me no que pensas. Colocas as mãos nos joelhos e levantas-te num impulso ameno. Olho para o teu rosto e não consigo tirar conclusões, como se um ferro de engomar tivesse passado por cima de toda e qualquer demostração de emoção. E pergunto eu: O que vai aí dentro? Silêncio. Acompanho essa tua ausência de resposta enquanto te vestes, tomas o pequeno almoço, lavas os dentes. Diriges-te em direção ao espelho, ajeitas a blusa e apertas o botão exatamente com o mesmo vislumbre sublime de sempre mas embaciado pela respiração cansada. Limpas o vidro embaciado e olhas-me nos olhos. E perguntas: O que vai aí dentro? Silêncio. Não lhe consegui responder. 
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto e observei-a a sair de casa. Sentei-me na berma da cama, de cabelo despenteado, de olhar focado no vazio e perguntei-me: O que vai aqui, dentro de mim?

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Por vezes a força vai


Por vezes a força vai. Esvai-se, escorre como água pelo corpo. Desliza, trespassa e desespera como sangue a pingar no chão. E tentas agarra-la, num inútil esforço para coisa nenhuma, tal e qual correr num beco sem saída, ou então passar a borracha na tinta permanente. Não há volta a dar. Então olhas para trás, olhas para baixo e enlouqueces. E é aí que vês o sangue. Susténs a respiração por alguns segundos e então foges. Corres. Com intenção de ir para algum lugar mas indo para lado nenhum. Porque não há para onde ir quando a força vai. E as pernas não andam, mas corres na mesma. Corres por dentro, bloqueada por fora. Mas corres. Foges e vais. Mas estás presa com correntes que te agarram ao fundo do oceano. E é por isso que susténs a respiração. Mas a alma nada fora do corpo. E as pernas podem não mexer, mas nadas na mesma. Com intenção de ir para algum lugar mas indo para lado nenhum. Porque não há para onde ir quando a força vai. Nadas por dentro, bloqueada por fora. Mas nadas, procuras ar, procuras a força que sempre te fez lutar. Talvez por vezes seja preciso aprender a respirar no oceano, inspirar no fundo e expirar no meio das correntes. Aprender não a agarrar a água, mas a envolve-la como ela te envolve. Como se parte dela fosses. E vais, mas já não precisas de fugir, já não precisas de correr. Porque nem sempre é necessário correr para encontrar. Então ficas. A fuga visita-nos quando desconhecemos aquilo que chega ou aquilo que nos falta. Mas quando o incluímos naquilo que somos já não precisamos mais de fugir - porque somos um só.
Por vezes a força vai. Mas não há corpo fraco que prenda uma alma forte. Uma alma livre. Uma alma que sonha. A força vai e vem como as ondas. Mas só tu podes decidir se consegues viver no oceano.