terça-feira, 20 de junho de 2017

Cada vez que olho para ti, sei que é do teu lado que devo estar.


Cada vez que olho para ti, revejo histórias e brincadeiras, relembro sorrisos partilhados, sonhos já concretizados e coisas boas que estão por vir. 
Cada vez que penso em ti, penso em nós. No quanto nos moldamos em defeitos e imperfeições e no quanto o nosso molde se tornou único. 
Cada vez que penso em ti, penso em nós. Penso no quanto evoluímos juntos e no quanto cada um dos nossos erros contribuiu para que crescêssemos e aprendêssemos. Juntos percebemos o quanto cedências por vezes resolvem birras, o quanto ouvir o que o outro nos tem para dizer ajuda a ultrapassar situações difíceis. Juntos aprendemos que torcer o nariz não é ser teimoso e que ceder não significa perder a personalidade.
Cada vez que penso em ti, penso em nós. No quanto de ti tenho em mim e no quanto tudo isto que criamos me tornou no que sou hoje. Porque sabes que uma pessoa merece o maior respeito do mundo quando ela te salva, quando te guia para a luz e te mostra que és capaz florescer! E é essa pessoa que te faz perceber que vales mais do que tudo aquilo que já te fez cair, do que tudo aquilo que já te magoou. 
Sabes que a pessoa é a tal quando ela faz tudo isto e ainda te põe um sorriso no rosto todas as manhãs.
Cada vez que olho para ti, sei que é do teu lado que devo estar.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pagar pelo Direito de Sobreviver


Olhamo-nos, aterrorizados pelo pânico, aturdidos pela angústia da separação. Olhamo-nos de olhos em lágrimas e de coração despedaçado; E o barco ia se afastando enquanto eu em terra o via a se distanciar. Enquanto a minha alma  aos poucos era arrancada de mim e levada com ele. Vi o olhar dela lá no fundo. Mal eu sabia que era o último.
Os seus olhos estavam agora perdidos naquele imenso azul, num misero barco, em direção à Grecia. Eu cá fiquei... Chorei todos os dias quando percebi que o dinheiro não ia chegar para que os dois pudéssemos atravessar a fronteira. Chorei de tristeza por mim, de felicidade por ela, de medo por nós.
Hoje o olhar dela sumiu. Hoje estou sozinho porque não fugi da morte. Hoje estou sozinho porque a minha esposa ao fugir para exercer o seu direito à vida acabou por não resistir. Mas que ironia é esta?

Desde quando é que faz sentido pagar pelo direito de sobreviver?


Fictício - Carta de um Refugiado

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Não há matemática que resolva a escassez de amor




Olá meu amor,


Tantos anos passados e eu nunca te escrevi. Não sei se por preguiça ou por desleixo meu. Sempre disseste que não tinha habilidade para as palavras e que só entendia de números e equações. Talvez tivesses razão - tinhas sempre! Logo tu, sempre tão dona do teu nariz, sempre tão refilona mas ao mesmo tempo tão meiga e doce. E eu? Eu sempre tão preocupado com integrais e derivadas. Eu sempre tão banhado de desculpas e ausências. Eu sempre tão distraído de ti, sempre tão longe de nós.

Hoje que partiste, percebo que a matemática de nada me valeu. Hoje que partiste, percebo que não existem fórmulas que te tragam de volta. Hoje que partiste, percebo que o meu semblante carregará para sempre o pedaço de destino perdido que sou, numa infinidade de estonteantes e singulares possibilidades de decisões que podia ter tomado. Hoje que partiste, estou aprisionado num vazio que os números não preenchem. Enterrado no fardo e na culpa - porque hoje sozinho, revejo-me nas palavras que um dia me escreveste:

‘’Sim a matemática resolve problemas reais - colocou prédios ao alto, criou computadores, permitiu ir à lua e voltar. Sim a matemática soluciona questões da vida, mas não ensina a viver João! Não ensina a cuidar. Não existem equações que definam a percentagem de carinho ou a quantidade de atenção que deves dar; O tempo que deves dedicar a ser feliz também não se conta, não se calcula. E eu até posso não entender nada de matemática, mas compreendo a vida. Viver não é certo nem preciso como os cálculos. Nunca te esqueças: Não há matemática que resolva a escassez de amor.’’

(Sempre tiveste razão)

Com saudades,


O teu marido e (solitário) professor de matemática