quarta-feira, 7 de junho de 2017

Não há matemática que resolva a escassez de amor




Olá meu amor,


Tantos anos passados e eu nunca te escrevi. Não sei se por preguiça ou por desleixo meu. Sempre disseste que não tinha habilidade para as palavras e que só entendia de números e equações. Talvez tivesses razão - tinhas sempre! Logo tu, sempre tão dona do teu nariz, sempre tão refilona mas ao mesmo tempo tão meiga e doce. E eu? Eu sempre tão preocupado com integrais e derivadas. Eu sempre tão banhado de desculpas e ausências. Eu sempre tão distraído de ti, sempre tão longe de nós.

Hoje que partiste, percebo que a matemática de nada me valeu. Hoje que partiste, percebo que não existem fórmulas que te tragam de volta. Hoje que partiste, percebo que o meu semblante carregará para sempre o pedaço de destino perdido que sou, numa infinidade de estonteantes e singulares possibilidades de decisões que podia ter tomado. Hoje que partiste, estou aprisionado num vazio que os números não preenchem. Enterrado no fardo e na culpa - porque hoje sozinho, revejo-me nas palavras que um dia me escreveste:

‘’Sim a matemática resolve problemas reais - colocou prédios ao alto, criou computadores, permitiu ir à lua e voltar. Sim a matemática soluciona questões da vida, mas não ensina a viver João! Não ensina a cuidar. Não existem equações que definam a percentagem de carinho ou a quantidade de atenção que deves dar; O tempo que deves dedicar a ser feliz também não se conta, não se calcula. E eu até posso não entender nada de matemática, mas compreendo a vida. Viver não é certo nem preciso como os cálculos. Nunca te esqueças: Não há matemática que resolva a escassez de amor.’’

(Sempre tiveste razão)

Com saudades,


O teu marido e (solitário) professor de matemática

1 comentário:

Adriana Lima disse...

amoroso! como tu :)