sexta-feira, 6 de maio de 2016

Coração que veste negro


A melancolia outrora percorrera-lhe as veias. Era sangue envenenado que chegava ao coração e o pintava de negro; que impiedosamente lhe desalmava a alma; que lhe acelerava os dias, que lhe desacelerava as noites. Eram noites longas, onde os olhos decoravam as fissuras do tecto e os diferentes reflexos da lua no estore da janela. 
E os olhos viam até não poder ver, os olhos abriam até não poder abrir. Até as lágrimas ocuparem o lugar da visão. Até as lágrimas esvaziarem os espacinhos preenchidos de felicidade para os preencherem de uma perversa tristeza.
Um dia a melancolia se foi. Levou consigo demasiado, mas também deixou... Marcas ficaram. Ah, houveram fissuras que passaram do tecto para tudo aquilo que era seu. Para tudo aquilo que a fazia ''ser''. São fissuras que ficam. Permanecem. Conservam-se para a vida.
No entanto camadas de amor e carinho foram-na confortando, foram-na aconchegando até que no inverno tinha a cama mais quentinha de sempre. Uma cama que a protegia dos medos, que afastava a melancolia e lhe tratava das fissuras. Esses lençóis eram todos aqueles que contribuíram para que tudo melhorasse. Aqueles que fizeram com que a melancolia que outrora lhe percorrera as veias não voltasse mais.

2 comentários:

Cláudia S. Reis disse...

Do que consegui ler do texto fiquei maravilhada com a tua capacidade de nos transportares para outras realidades. Mas não consegui ler tudo porque a imagem que diz "Silver Pavillon" tapa uma boa parte do texto =/

C. disse...
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